Crise no Oriente Médio encarece frete e ameaça rentabilidade no Sul de Goiás
Disparada do dólar e do petróleo gera efeito dominó que atinge de donos de postos em Morrinhos a caminhoneiros em Pontalina

A instabilidade geopolítica no Oriente Médio cruzou fronteiras e já apresenta faturas salgadas para o consumidor goiano neste início de março de 2026. O fechamento do Estreito de Ormuz — um dos pontos de escoamento de energia mais vitais do planeta — desencadeou uma reação em cadeia que fez o dólar saltar para R$ 5,27 nesta sexta-feira (6) e impulsionou o barril do petróleo Brent a uma alta de 7,5%, aproximando-se da barreira dos US$ 80.
Para um estado como Goiás, onde a economia pulsa através do transporte rodoviário e da força do agronegócio, a combinação de moeda valorizada e combustível caro acende um alerta vermelho sobre os custos de produção e o frete, especialmente no eixo Morrinhos-Pontalina.
Desabastecimento e a pressão sobre o diesel
A conexão entre o mercado global e as bombas locais é imediata. De acordo com o Sindiposto-GO, o Brasil ainda depende da importação de cerca de 20% dos produtos refinados (diesel e gasolina). Quando a oferta global diminui pela interrupção em Ormuz, o preço sobe independentemente da origem da compra.
Wellington Dias, vereador em Morrinhos e proprietário de posto de combustível, relata que o impacto já ultrapassou a barreira dos preços e atingiu a disponibilidade do produto. "A situação preocupa muito. Fui comprar combustível e quem me fornece está até sem produto no momento", revela.
Dias destaca que o diesel será o item mais sensível da cadeia, impactando diretamente o transporte e o agro. Ele observa ainda uma movimentação atípica no mercado: "É estranho que os aumentos começaram a surgir uma semana antes do início do conflito, mas não há dúvida de que o enfrentamento militar vai gerar um impacto ainda maior no preço final".
O impacto na mesa do transportador
Na ponta final da cadeia logística, o aumento dos insumos gera um dilema de sobrevivência. Em Pontalina, município estratégico para o escoamento da safra regional, o sentimento é de incerteza. Paulo Fernandes Silva, proprietário de caminhão que realiza o transporte de soja na região, vê com apreensão o envolvimento de potências globais no conflito. "Sempre que os Estados Unidos estão envolvidos em algum conflito, isso mexe diretamente no preço do combustível aqui para nós", avalia.
Para os transportadores autônomos, o cenário é de "escolha de Sofia". Com os preços da soja em patamares baixos, o custo do frete torna-se um componente proibitivo. "É uma situação muito ruim. Com o preço da soja desfavorável, vou ser obrigado a diminuir o valor do meu transporte para não perder as viagens e deixar o caminhão parado. O problema é que isso vai gerar um impacto direto na mesa da minha família, pois a margem que sobrava está sumindo", desabafa Fernandes.
Expectativa de novos repasses
A expectativa do setor varejista e logístico é de que a Petrobras realize novos ajustes em breve para evitar um descolamento excessivo do Preço de Paridade Internacional (PPI). Como o agronegócio goiano está em fase intensa de movimentação de máquinas e escoamento de grãos, o encarecimento do diesel atua como um imposto invisível sobre a produção.
Enquanto o Estreito de Ormuz permanecer sob tensão, a tendência é de que os preços nos postos de Morrinhos e região reflitam a volatilidade de um mercado global que dita o ritmo do desenvolvimento local. A crise reafirma que, na economia do Sul de Goiás, o que acontece no Golfo Pérsico tem o poder de alterar desde o custo da lavoura até o orçamento doméstico do trabalhador de Pontalina.


